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Não mexa com quem está quieto

Por Paulo Pazz



O comprido da estrada se espichava medonho diante da minha vista. Para sufocar a madorra que causava sonolência, apontava meu olhar para os lados da mata que ladeava a estrada. Como quem enxerga figuras nas nuvens (de castelos a dragões e até rostos e outros bichos), eu os compunha entre as árvores médias, de caules retorcidos e casca grossa do meu Cerrado. Ora e outra, ouvia ruídos no meio dos galhos ou por baixo dos arbustos ralos, ressequidos, e, quando os ouvia, tentava descobrir o autor, que poderia ser um pássaro, um pequeno animal e até insetos. Assim, disfarçava a canseira da jornada.


Polaco ia na frente, farejando aqui e ali. Depois, sumia no meio do capim, de onde eu via apenas o balançar do seu rabo amarelado e de pelo baixo. De vez em quando, um latido ou um rosnado espantava o silêncio visguento do dia. Baixei a aba do chapéu e cochilei, deixando meu cavalo a passo, seguindo de volta para casa, na sua lerdeza sacolejante.


Passava um pouco das três horas da tarde e com mais ou menos uma hora chegaria na minha taperinha, que eu e meu pai construímos usando o pouco conhecimento da empreitada. Ficou habitável e aconchegante, porém. Nem perto e nem longe de Catalão, na região do Morro Agudo.


Beirava as quatro horas quando o barulho macio da corredeira do córrego chegou aos meus ouvidos. Polaco já estava dando lambidas na lâmina da água, saciando-se e louvando por aquele refrigério. Desci do cavalo, agachei na beira do riacho, enchi meu chapéu com aquele líquido e derramei em minha cabeça, provocando um arrepio de satisfação por todo meu corpo. Com as mãos em concha, bebi e me fartei daquela água pura e cristalina.


Montei novamente e atravessei o córrego. Agora, estava na minha pequena terrinha e já podia ver o telhado torto da tapera que guardava todas as memórias de meus saudosos pais.

Como doía em mim essas lembranças e, ao mesmo tempo, como afagavam-me, pois me certificavam que amei e fui muito amado.


Chegando no terreiro da frente, apeei e tirei a cela do cavalo. Coloquei-a sobre o banco comprido de madeira e fiz um cigarro de palha, descansando um pouco, antes de pegar a bacia para tomar um banho. Amanhã seria dia de esticar a cerca que já estava cai-não-cai. Então, precisava estar bem descansado para a tarefa.


Aticei a brasa do pito com a unha do dedão e soltava baforadas de fumaça, quando fiquei alerta, ouvindo ganidos do Polaco, vindos lá da grotinha perto da hortaliça. Quanto mais perto eu chegava, mais alto ouvia o choro do meu companheiro.


Direcionado pelos ganidos, encontrei Polaco encurralando um porco espinho. Com a minha chegada, o bicho se embolou mais ainda, deixando aqueles espinhos esbranquiçados mais salientes ainda. Segurei meu cachorro inquieto e espantei o pequeno animal que sumiu lerdo entre os galhos da pequena mata.


Não era o caso, mas fiquei com o pescoço grosso de vontade de rir, ao ver meu cão com a cara cheia de espinhos, parecendo barba e bigodes espessos. Peguei Polaco no colo e levei para casa.


A noite já ia alta quando consegui tirar aquilo tudo da sua cara.


Por quase uma semana, Polaco não comeu direito e aprendeu, de forma muito dolorida, a não mexer com quem está quieto.



Autoria



Paulo Pazz é licenciado em Letras pela UFG-CAC, Professor pelo Estado de Goiás e Membro da ACL - Academia Catalana de Letras. Também é revisor e colunista da Revista Portalvip (com circulação em toda região sudeste de Goiás), integrante da Comissão julgadora das Olimpíadas da Língua Portuguesa desde 2014, ator integrante da Cia Express’arte e instrutor de “Contação de Causos" pelo Centro Cultural Labibe Faiad (Catalão/GO). Participou da mesa redonda O fazer Poético e do Sarau de Poesias (ambos do I FLICAT UFG) e do Festival Literário do Cerrado – FLICA (Ipameri-GO), edições I, III e IV. Mantém a Página literária do blog Recanto das Letras, do site da UOL, desde Outubro de 2008. Recebeu oito premiações em concursos literários mantidos pela UFG (a primeira em 1993), cinco premiações pelo SESI-Arte e Criatividade (nas categorias Conto e Poesia) e o Prêmio “Trabalhador da Indústria” pelo SESI. Participou de duas antologias poéticas publicadas pelo SESI – Serviço Social da Indústria e publicou os livros "Palavra Lavrada", "Transfiguração" e "Manual do Desesquecimento".

Fanpage: https://www.facebook.com/paulopazz


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